"As pessoas me perguntam por que eu escrevo coisas tão brutas. Gosto de dizer que tenho um coração de menino; está guardado num vidro em cima da minha escrivaninha."

(Stephen King)



terça-feira, 18 de março de 2014

Dia de guerra

Fonte: Google imagens.

Não quero ouvir coisas legais.
Preciso do meu mau-humor. Deixe-o aqui!
Se o que tem são palavras de exortação, melhor sair
Porque já não posso garantir minha boa educação.
Hoje, quero mesmo desfiar meu rosário de grosserias
Expurgar meu ranço
Exorcizar demônios próprios e alheios
Diagnosticar males em vez de chorar dores.


Não me ofereça a mão, levantarei quando me sentir pronta.
Caso magoe ver-me assim, vá. Pode ir.
Pois não é minha intenção perdê-lo. 
Quando acabar, quero poder combinar com você qualquer coisa
Olhá-lo nos olhos e contar como deixei o inferno.
Mas não agora.
Saia.
Hoje é dia de guerra e a sua paz não me interessa.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Manhã de Natal

Esgueirou-se pela porta, cuidando de olhar para os dois lados antes de sair da casa. A rua deserta começava a iluminar-se com a luz ainda hesitante do amanhecer. Conferiu o relógio e viu que faltavam quinze minutos para as seis. Estava atrasado. Ajeitou o pesado saco no ombro e seguiu com passos apressados para o carro.
Sentia-se exausto e apreensivo, mas, ainda assim, satisfeito. Quatro casas parecia um bom número para alguém de sua idade. Tudo bem, era uma a menos que no ano anterior, mas e daí? O trabalho saíra ainda mais bem feito dessa vez. Nenhum acidente. Nenhuma surpresa. E a certeza de que ninguém conseguiria dizer que ele estivera em qualquer uma das casas. Sorriu.
No entanto, demorara-se além do esperado. De nada adiantaria todo o esmero e cuidado se fosse surpreendido com sua roupa tingida de vermelho vivo e o enorme saco nas costas.
“Talvez eu esteja ficando velho demais pra isso”, pensou, sentindo o ombro formigar sob o peso.
— Bobagem! — murmurou com um sorriso malicioso — Estou melhor que nunca.
Lembrou-se da primeira vez; de como estava nervoso, do medo de ser surpreendido e do sentimento de realização que experimentara ao ver tudo feito como planejado. Ainda provava da mesma sensação após tantos anos. Era revigorante imaginar os rostinhos surpresos das crianças, que iam até a cama dos pais, acordá-los na manhã de Natal. Aquele momento estaria para sempre em suas memórias. Isso fazia valer a pena toda a preparação, que podia levar o ano inteiro. A escolha da cidade, das casas, tudo tinha que ser pensado e planejado com carinho.
Faltavam poucos metros para o carro, e ele se perguntava por que tinha estacionado tão longe. Excesso de cuidado, talvez, mas era melhor assim.
Colocou o saco no chão e aliviou os músculos doloridos. Abriu o porta-malas e teve que fazer um esforço extra para conseguir levantar o fardo. No ano seguinte, poderia cogitar souvenirs mais fáceis de carregar. Mãos, por exemplo, eram menores, mais leves e fáceis de cortar.
“Bobagem!”, pensou, “ Nada fica melhor na estante do que crânios”.
Uma das cabeças rolou para fora do saco. Ele calmamente a apanhou e lançou-a de volta, provocando um ruído nauseante quando ela se chocou com as outras.
Apressou-se. O sol já aparecia, logo as pessoas começariam a acordar. Daí viriam os gritos, os vizinhos, a polícia... Precisava estar longe.

Entrou no carro e partiu, provando da sensação de alegria e dever cumprido. Estava feliz.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Até o fim



Leva-me leve, nas pontas dos dedos
Para que eu não perceba e me assuste.
Porque de medo também morre o amor
E por insegurança, mata-se a felicidade.

Toca-me sempre e devagar
Para que eu me acostume e goste.
Olha-me muito, escuta e fala
Pois importantes são os gestos,
Mas igualmente são as palavras.

Quando eu fugir, busca-me
E me acolhe quando eu voltar.
Que sejam teus braços refúgio seguro
Para onde eu retorne sem receio, sem tredice, sem pesar.

Aconchega-me bem junto do peito
Para que eu te ouça o coração e me convença de que aquele lugar é meu.
E é ali que vou querer estar para sempre
Sendo eu mesma
Até o fim.



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Morte Branca


A morte presa entre meus dedos é pálida e valsa comigo desde meus quinze anos. Fria, ela me seduz, envolvendo-me em seus braços traiçoeiros, apenas para abandonar-me as margens de um vazio profundo e inconsolável.
Cara, cobra seu preço impiedosamente, tirando de mim o juízo, a dignidade e o que me resta de humano. Faz-me seu escravo e, ainda assim, é por ela que chamo quando as coisas querem fazer sentido.
Levou bons amigos, trouxe-me a loucura. Tenho dela nojo e por mim, desprezo. Sendo assim, vou abraçá-la uma última vez. Iremos juntos nesta derradeira viagem ao inferno. Sem pensar nos limites, mergulharemos fundo na imundice de minha existência e quando tivermos ultrapassado o ponto de retorno, só me restará o abandono. Então eu a terei vencido.
Vejo que ela duvida, zombando de mim. Não acredita que eu seja capaz, mesmo quando já tenho o metal cravado na carne. “Amanhã talvez, não hoje”, ouço-a sussurrar. “Posso levá-lo a lugares muito mais interessantes”.
Sinto-me tentado. Quem sabe amanhã? Afinal que diferença fará mais uma dose? Quase a ponho de lado, mas então escuto seu riso. Se não agora, nunca mais. Seguro firmemente o cilindro e desperto nela o pânico; já não tenho mais graça. Um suspiro de alívio, uma lágrima e empurro o êmbolo até o final. Em um instante, sinto-a gritar em minhas veias. Fecho os olhos e gozo dela pela última vez.


E já que o assunto é Morte, enjoy it...


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Filosofia clichê de um apaixonado












Amantes têm palavras românticas
Amores, muda cumplicidade.

Amantes festejam vitórias
Amores comemoram conquistas.

Amantes têm códigos secretos
Amores, linguagem própria.

Amantes traçam planos
Amores fazem projetos.

Amantes têm olhares insinuantes
Amores, olhos reveladores.

Amantes são alegres
Amores, felizes.

Que os amantes possam desfrutar da plenitude dos amores.

E que os amores jamais deixem de ser amantes.