"As pessoas me perguntam por que eu escrevo coisas tão brutas. Gosto de dizer que tenho um coração de menino; está guardado num vidro em cima da minha escrivaninha."

(Stephen King)



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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Morte Branca


A morte presa entre meus dedos é pálida e valsa comigo desde meus quinze anos. Fria, ela me seduz, envolvendo-me em seus braços traiçoeiros, apenas para abandonar-me as margens de um vazio profundo e inconsolável.
Cara, cobra seu preço impiedosamente, tirando de mim o juízo, a dignidade e o que me resta de humano. Faz-me seu escravo e, ainda assim, é por ela que chamo quando as coisas querem fazer sentido.
Levou bons amigos, trouxe-me a loucura. Tenho dela nojo e por mim, desprezo. Sendo assim, vou abraçá-la uma última vez. Iremos juntos nesta derradeira viagem ao inferno. Sem pensar nos limites, mergulharemos fundo na imundice de minha existência e quando tivermos ultrapassado o ponto de retorno, só me restará o abandono. Então eu a terei vencido.
Vejo que ela duvida, zombando de mim. Não acredita que eu seja capaz, mesmo quando já tenho o metal cravado na carne. “Amanhã talvez, não hoje”, ouço-a sussurrar. “Posso levá-lo a lugares muito mais interessantes”.
Sinto-me tentado. Quem sabe amanhã? Afinal que diferença fará mais uma dose? Quase a ponho de lado, mas então escuto seu riso. Se não agora, nunca mais. Seguro firmemente o cilindro e desperto nela o pânico; já não tenho mais graça. Um suspiro de alívio, uma lágrima e empurro o êmbolo até o final. Em um instante, sinto-a gritar em minhas veias. Fecho os olhos e gozo dela pela última vez.


E já que o assunto é Morte, enjoy it...


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Momentos


Conto escrito para o Desafio de Escritores, cujo tema foi a canção "Wooden Boat".

Foi numa terça ou quarta-feira, não me lembro bem, mas é certo que era um dia de pouco movimento. Ele entrou, bem vestido, embora a gravata estivesse frouxa e o colarinho desabotoado. Nunca o havia visto por ali e fiquei pensando que tipo de cliente ele seria. Tinha por volta dos sessenta anos e parecia cansado, contudo, seus olhos azuis eram atentos, vívidos. Sentou-se na ponta do balcão, longe de onde eu arrumava os copos, e ficou ali, observando-me em silêncio. Cheguei a pensar que ele fosse do tipo calado; daqueles que bebiam um copo após o outro, pagavam a conta e iam embora sem dizer nada. Porém, aqueles olhos pareciam ansiosos demais para pertencerem a alguém quieto.
Levei-lhe um copo e perguntei o que queria para beber. Ele olhou as prateleiras atrás de mim indeciso e deu de ombros. Apanhei uma garrafa de bourbon e lhe acenei com ela, ao que ele assentiu. Servi-lhe uma dose, perguntando se desejava algo mais. Ele sorriu, pegou o copo e sorveu a bebida toda num gole.
— Por gentileza, jovem...
— Amy.
— Jovem Amy, pode deixar a garrafa aqui comigo.
Eu continuei a organizar os copos sob o balcão, ocasionalmente lançando-lhe um olhar de relance. Ele ficou ali por certo tempo, bebericando o bourbon, parecendo perdido em seus pensamentos. Fui pega de surpresa, quando sua voz ecoou pelo bar vazio.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Solidão que mata




O inspetor Roberson massageava vigorosamente a têmpora direita. A maldita enxaqueca insistia em enlouquecê-lo. O local estava cheio de gente; peritos, policiais, investigadores, todos se esbarrando no pequeno apartamento. Ele estranhou que não houvesse o odor nauseante das últimas cenas de crime. Talvez aquela nem fosse uma das vítimas de seu serial killer afinal.
Hesitou por um instante à porta, observando a confusão das pessoas lá dentro. Não queria entrar. Aqueles crimes estavam acabando com ele. Poucas pistas, muitas vítimas e a terrível pressão pública cobrando um resultado impossível. Tinha que admitir que o sujeito era esperto. No início, sequer conseguiram ligar as mortes a um mesmo assassino. Fora Roberson quem fizera a conexão. Se aquele caso também fosse um dos seus, seria o nono.