"As pessoas me perguntam por que eu escrevo coisas tão brutas. Gosto de dizer que tenho um coração de menino; está guardado num vidro em cima da minha escrivaninha."

(Stephen King)



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sexta-feira, 23 de março de 2012

Amigo Condor




Querido amigo,

Vê-lo, hoje pela manhã, fez-me um bem danado e me trouxe grande alívio. Foram muitos dias sem sua visita; o que aconteceu? Cheguei a pensar que estivesse morto, ou que tivesse desistido de mim. Não fique tanto tempo sem vir, por favor; sabe que preciso de você.
Enquanto esteve fora, algumas coisas mudaram por aqui. Sou o único preso agora; a francesa e os americanos foram levados há alguns dias. Não sei o que houve com eles, mas, certamente, estão melhores que eu. Não. Não se preocupe. Não tenho intenção de tentar aquilo de novo; vou até o fim sem me entregar. Além do mais, há duas coisas que tenho muita esperança de realizar se sair daqui: publicar o livro e subir aquela montanha que você me mostrou em nosso primeiro voo juntos.
Tentei voar sozinho quando você se demorou, mas não consegui. Sem sua ajuda, quando fecho os olhos, ao invés de alçar voo, mergulho em uma escuridão assustadora e tenho a sensação de estar caminhando à beira do precipício. Não posso sem você.
Lembrei-me, nesses dias, da primeira vez em que você sobrevoou o acampamento. Foi incrível o efeito que causou em todos. Estávamos lá, olhando para o céu, prisioneiros e guerrilheiros, homens e mulheres, americanos, europeus e latinos, militares e civis, todos contemplando, maravilhados, seu voo. Por um instante, não existiram diferenças; éramos seres humanos admirando a obra divina. Pena não ter durado. Logo, estávamos cientes dos abismos que existiam entre nós. Porém, aquele momento deu-me novo ânimo e me reacendeu a esperança de que ainda haja formas de entendimento.
Os outros se perguntam do porquê de você sempre voltar. Alguns dizem que está à espera de se banquetear com nossos corpos, outros, que se trata de uma ave de mau agouro. Mas eu sei que você retorna por mim, para que voemos juntos e eu possa ver o que você vê daí de cima. Do alto, não somos diferentes, não temos fronteiras e a humanidade realmente parece caminhar no mesmo passo. Gosto dessa visão! Muito mais do que da que tenho aqui embaixo. Nós somos seres gregários, amigo, mas não suportamos a proximidade com outros de nossa espécie. É um contrassenso, eu sei...
Vi, aqui, prisioneiros, irmãos de infortúnio, brigando por um pedaço maior de sabão ou por uma colher de arroz a mais. Nem sempre é questão de sobrevivência. É o querer estar em vantagem, típico do ser humano. Lutas, como a que me faz vítima, existem, porque temos mais facilidade de enxergarmos diferenças que semelhanças entre nós. Criamos línguas, religiões, moedas, classes, tudo para que nos distingamos e separemos. Usamos o pretexto de formarmos grupos de iguais para segregar os que são diferentes. Mas que diferenças tão grandes seriam essas que nos impedem de estarmos juntos? Não sei responder a isso e, quanto mais penso, mais estranha essa questão me parece.
Por isso gosto de ver o mundo por sua perspectiva. Vistos assim, somos apenas serezinhos muito parecidos caminhando sobre a Terra. Talvez seja esta a razão da paciência de Deus conosco: vistos das alturas, somos mais bonitos, mais fraternos e menos mesquinhos.
Situação inesperada se instaurou desde que os outros se foram: tenho sido mais bem tratado pelos guardas. Acho que por eu estar sozinho, não enxergam em mim grande ameaça. O engraçado é que sempre tive a impressão de que os americanos me temiam por eu ser latino, portanto  mais parecido com os seqüestradores do que com eles. Já os seqüestradores tinham receio de mim por eu fazer parte do grupo de seqüestrados. Então, a que grupo eu realmente pertencia? Creio que a ambos; talvez eu fosse o elo entre eles e, por essa razão, rejeitado pelos dois.
Bem, companheiro, acho que vou encerrar por aqui; estou cansado e a luz já é pouca. Espero que venha buscar-me em breve. Acredito que mais duas ou três viagens sejam suficientes para que eu tenha tudo o que preciso para o livro. Darei seu nome a ele.
Obrigado por ter voltado e peço que não desista de mim.

Com toda gratidão e estima,
                     Juan Miguel.
Colômbia. 


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Carta a Che Guevara


Texto escrito para o Sétimo Desafio de Escritores, cuja tarefa consistia em escrever uma carta a Che falando das atualidades do mundo em relação à luta e os ideais de Guevara.



Companheiro Ernesto,

Surpreendentemente, aos setenta e nove anos, continuo por aqui, respirando, lúcido e consciente de meus atos. Não espere que haja nesta carta um pedido de desculpas. Não é por arrependimento que lhe escrevo, mas por uma súbita necessidade de compartilhar minha frustração. Saiba que, com minha traição, acabei fazendo-lhe um favor. Você se tornou uma personalidade admirada no mundo todo, por pessoas inclusive que jamais o entenderiam se o conhecessem. Soube até que o consideram santo em certos lugares, o que não deixa de ser muito engraçado; a santidade é algo que nunca estaria ao alcance de homens como nós. 
Livrei-o de se tornar uma figura patética, como aconteceu ao seu amigo Fidel. 
Quanto a mim, continuo incógnito, como prometeram os americanos; o serviço secreto deles foi muito eficiente em desaparecer comigo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Carta a Hitler


Texto escrito para o Desafio de Escritores, cuja tarefa consistia em escrever uma carta a Hitler, do ponto de vista do final do século XX, considerando que ele vivesse, nessa época, em Bariloche.

Adolf, 
   Esta carta vem pôr um ponto final em nossa relação; estou te deixando. Cansei-me de teus resmungos de frustração, de tua arrogância injustificada e de tua frieza. Não suporto mais ouvir-te suspirar “Se eles...”, “Se não fosse...”, “Se tivessem...”... Basta! Já que não admites que arruinaste a ti e ao teu país, assume ao menos que destruíste minha vida. 
   Há dias, venho pensando na história de outra Eva, a daqui. Sua vida será retratada em um filme. Sobre mim, jamais farão um filme. Culpa minha e culpa tua. Sempre que falam de mim, descrevem-me como uma mulher inexpressiva, vazia e até obtusa. Mas a verdade, e talvez nem tu o saibas, é que não sou nada disso. Ao contrário do que possas pensar, Adolf, sou bastante inteligente, porém tive que me rebaixar muito para estar a tua altura. Anulei-me para estar ao teu lado, primeiro, por deslumbramento adolescente, depois, por amor, e, por fim, por conformismo.
   Entendi, há tempos, que não te limitaste a perseguir os que não te compreendiam, mas calaste também os que enxergavam tua mediocridade. Tive medo de que visses, através de mim, tuas fraquezas. Calei-me e igualei minha covardia à tua. Mas o que devo temer agora? Um velho amargo que perdeu a máscara de superioridade e que passa os dias a praguejar?
   E eu que pensei que te casaste comigo, às vésperas de nossa fuga, porque não me querias perder. Grande ilusão! Tu não querias era estar só em teu fracasso. Arrastaste-me para o exílio apenas por medo da solidão. Eis que farsa foi nosso casamento e que arremedo de marido tu me foste. Digo-te que, em todos esses anos que aqui vivemos, nunca fui feliz.
   Espero que possas, ainda que uma única vez antes de morrer, encarar o mal que fizeste. Tua nação tem vergonha de ti e teu povo ficou marcado por conta das atrocidades que cometeste. Enxerga, homem, tua pequenez. Desce desse pedestal de mentiras onde te instalaste. Que grande estadista foste, se sequer podes sair à rua e dizer aos outros quem és? Se te julgas mesmo tão superior a essas pessoas, que com desprezo chamas de “gente de fala enrolada”, por que não alardeias teus feitos diante delas? Covarde é o que sempre foste! Este povo te cuspiria na cara se te conhecesse.
   Enfim, não posso mais te suportar. Azedas e infectas tudo ao teu redor; preciso limpar-me de ti. Não te preocupes, não tenho qualquer intenção de entregar teu paradeiro; lembro-me de teu pânico, quando descobriram Mengele no Brasil.
   Deixo Bariloche, mas não a Argentina; gosto daqui. Não estou fugindo de ti e sequer pedirei que não me procures, pois sei que, em tua inércia, és incapaz de buscar o que quer que seja.
   Fica e reina no império que conquistaste.

             Eva Braun 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Carta a Borges

Texto escrito para o Sétimo Desafio de Escritores: uma carta a Jorge Luís Borges.


Borges e o gato Beppo.

Querido Borges.

Sendo eu a escrever-te esta carta, não poderia ser ela ordinária, mas, sim, fantástica, como são teus textos. Só sendo tu o destinatário, é que ela é possível e não absurda.
 Quero, antes de tudo, agradecer-te pelos poemas. Tiveste inclusive a maravilhosa audácia de dar meu nome a um deles. Senti-me lisonjeado; sabes que sou vaidoso. Porém, foi do outro que gostei mais, daquele cujo título genérico não foi capaz de esconder que era em mim que pensavas quando o escreveste.
São belos, ambos, mas em minha ousadia, achei-os vagos. Havia tanto mais a ser dito. Não senti neles a profundidade de nossa relação. Por que não explicitar a estreiteza dos nossos laços? Acaso temeste falar das noites em que eu me esgueirava para tua cama e do toque macio do meu corpo em tua pele? Não me lembro de ser tua mão temerosa nas carícias que a mim dispensaste, nem terias motivos para isso, já que vivi a me oferecer a ti sem nenhum pudor. Ficaste envergonhado de admitir que, em várias ocasiões, abriste o coração para mim e que fui teu confessor em momentos de angústia? Devias ter escrito sobre as vezes que, na falta dos teus, emprestei-te meus olhos para que visses o mundo da forma que nenhum olho humano seria capaz. Será que te esqueceste de nossa cumplicidade muda? Lembras de como te ensinei a desfrutar de uma boa companhia, sempre que possível, mas principalmente de como apreciar a solidão?
Não estou a me queixar, entende, sou-te muito grato. Mas é que, embora não tenha pertencido a ti, fui mais teu do que de qualquer outra pessoa, e por isso, esperava mais calor em tuas palavras.
Por favor, não te magoes com meu tom impertinente, é que, depois de velho, dei para ficar lamurioso. Pode ser também que eu esteja um tanto aborrecido com a proximidade do fim. Não quero tornar esta carta uma despedida, mas sabendo que minha partida não tarda, é inevitável tocar no assunto. Quero que fiques bem e que cuides de nossa amada Fanny.
Encerro dizendo que fui muito feliz estando tão próximo de ti, e fazendo-te um derradeiro pedido: gostaria de ser posto na Praça San Martín; seria  uma última homenagem a este velho amigo.
Segue feliz, amado Borges.
Do sempre teu,
                Beppo.