"As pessoas me perguntam por que eu escrevo coisas tão brutas. Gosto de dizer que tenho um coração de menino; está guardado num vidro em cima da minha escrivaninha."

(Stephen King)



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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Numa noite em Bucareste




Conheci Bucareste numa dessas viagens com amigos, logo após a faculdade, e devo confessar que, de inicio, não me impressionei com a cidade, que mais parecia recém saída da Segunda Guerra, tantos eram os monumentos ainda em ruínas. Estávamos conhecendo o leste europeu e três dias na capital romena me pareceram tempo demais. Teria sido tedioso, não fosse eu ter descoberto os encantos de Bucareste; melhor dizendo, os encantos de Anna.
Anna foi a razão de minha permanência prolongada na Romênia. Depois, tornou-se o motivo de minhas repetidas visitas ao país. Por fim, levou-me a fazer de Bucareste meu lar. Hoje, me seria impossível deixar esta cidade.
Casei-me com Anna e tivemos um filho. Sobre minha família o que posso dizer é que os amo infinitamente e que nada seria grande o suficiente para nos separar.
Foi ainda em minha primeira viagem à Europa, que tomei conhecimento de um tipo de turismo extravagante e muito praticado no velho continente, o turismo tumular. E o passeio consiste em exatamente isto: conhecer e admirar cemitérios. Realmente, a idéia não é muito atraente para todos, mas devo dizer que, hoje, minhas caminhadas noturnas por entre as lápides são quase sagradas. Ah, sim, se a intenção é a de encontrar espíritos, o melhor horário para um passeio nos cemitério é à noite, pois só almas terrivelmente atormentadas e perigosas se mostram durante o dia.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Simois e o Massacre de Timisoara

Existe uma antiga lenda romena, que fala de um trem de mortos que parte da Estação de Trens de Timisora levando almas para o Hades.




Simois caminhava de um lado para o outro no Pavilhão dos Mortos de Timisoara. Nunca, em mais de quarenta anos como encarregado responsável pela guarda das almas da Subseção 4, se encontrara em situação tão difícil e absurda. Conferiu mais uma vez o grande relógio da estação e se desesperou; em menos de meia hora o trem vindo do Hades chegaria e não havia nem sinal das tais almas desaparecidas.
Houve um tempo em que o trem partia diariamente do Mundo Inferior, para buscar os espíritos recém-desencarnados em Timisoara, mas, no pós-guerra, o fluxo de transportados caíra muito e, por ocasião da grande reforma administrativa promovida no Hades, em 1950, o novo Departamento de Logística determinou que os embarques seriam feitos apenas uma vez por semana. Construíram, então, um pavilhão sobrenatural, logo abaixo da Estação de Trens, onde as almas aguardavam sua derradeira viagem. Também foi criada a Guarda do Além, cuja função era a de recolher  e evitar que qualquer espírito se extraviasse de seu destino. E coube a Simois o cargo de Encarregado Chefe da subseção 4, que compreendia a cidade de Timisoara e redondezas.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Amigo Condor




Querido amigo,

Vê-lo, hoje pela manhã, fez-me um bem danado e me trouxe grande alívio. Foram muitos dias sem sua visita; o que aconteceu? Cheguei a pensar que estivesse morto, ou que tivesse desistido de mim. Não fique tanto tempo sem vir, por favor; sabe que preciso de você.
Enquanto esteve fora, algumas coisas mudaram por aqui. Sou o único preso agora; a francesa e os americanos foram levados há alguns dias. Não sei o que houve com eles, mas, certamente, estão melhores que eu. Não. Não se preocupe. Não tenho intenção de tentar aquilo de novo; vou até o fim sem me entregar. Além do mais, há duas coisas que tenho muita esperança de realizar se sair daqui: publicar o livro e subir aquela montanha que você me mostrou em nosso primeiro voo juntos.
Tentei voar sozinho quando você se demorou, mas não consegui. Sem sua ajuda, quando fecho os olhos, ao invés de alçar voo, mergulho em uma escuridão assustadora e tenho a sensação de estar caminhando à beira do precipício. Não posso sem você.
Lembrei-me, nesses dias, da primeira vez em que você sobrevoou o acampamento. Foi incrível o efeito que causou em todos. Estávamos lá, olhando para o céu, prisioneiros e guerrilheiros, homens e mulheres, americanos, europeus e latinos, militares e civis, todos contemplando, maravilhados, seu voo. Por um instante, não existiram diferenças; éramos seres humanos admirando a obra divina. Pena não ter durado. Logo, estávamos cientes dos abismos que existiam entre nós. Porém, aquele momento deu-me novo ânimo e me reacendeu a esperança de que ainda haja formas de entendimento.
Os outros se perguntam do porquê de você sempre voltar. Alguns dizem que está à espera de se banquetear com nossos corpos, outros, que se trata de uma ave de mau agouro. Mas eu sei que você retorna por mim, para que voemos juntos e eu possa ver o que você vê daí de cima. Do alto, não somos diferentes, não temos fronteiras e a humanidade realmente parece caminhar no mesmo passo. Gosto dessa visão! Muito mais do que da que tenho aqui embaixo. Nós somos seres gregários, amigo, mas não suportamos a proximidade com outros de nossa espécie. É um contrassenso, eu sei...
Vi, aqui, prisioneiros, irmãos de infortúnio, brigando por um pedaço maior de sabão ou por uma colher de arroz a mais. Nem sempre é questão de sobrevivência. É o querer estar em vantagem, típico do ser humano. Lutas, como a que me faz vítima, existem, porque temos mais facilidade de enxergarmos diferenças que semelhanças entre nós. Criamos línguas, religiões, moedas, classes, tudo para que nos distingamos e separemos. Usamos o pretexto de formarmos grupos de iguais para segregar os que são diferentes. Mas que diferenças tão grandes seriam essas que nos impedem de estarmos juntos? Não sei responder a isso e, quanto mais penso, mais estranha essa questão me parece.
Por isso gosto de ver o mundo por sua perspectiva. Vistos assim, somos apenas serezinhos muito parecidos caminhando sobre a Terra. Talvez seja esta a razão da paciência de Deus conosco: vistos das alturas, somos mais bonitos, mais fraternos e menos mesquinhos.
Situação inesperada se instaurou desde que os outros se foram: tenho sido mais bem tratado pelos guardas. Acho que por eu estar sozinho, não enxergam em mim grande ameaça. O engraçado é que sempre tive a impressão de que os americanos me temiam por eu ser latino, portanto  mais parecido com os seqüestradores do que com eles. Já os seqüestradores tinham receio de mim por eu fazer parte do grupo de seqüestrados. Então, a que grupo eu realmente pertencia? Creio que a ambos; talvez eu fosse o elo entre eles e, por essa razão, rejeitado pelos dois.
Bem, companheiro, acho que vou encerrar por aqui; estou cansado e a luz já é pouca. Espero que venha buscar-me em breve. Acredito que mais duas ou três viagens sejam suficientes para que eu tenha tudo o que preciso para o livro. Darei seu nome a ele.
Obrigado por ter voltado e peço que não desista de mim.

Com toda gratidão e estima,
                     Juan Miguel.
Colômbia. 


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A bruxa, o frade e os guardiões






Depois de uma noite terrivelmente longa, o dia enfim amanhecia e a vila continuava envolta em sombras. A densa neblina, que descera há alguns dias, permanecia, tornando tudo mais lúgubre. O cheiro da carne queimada ainda impregnava o ar, embora a fogueira há muito se tivesse extinguido. Thomas Bower achava que jamais se livraria daquele odor, nem tampouco dos horríveis gritos de Marybeth.
Não chorara por ela, nem o faria; não tinha esse direito. Não depois de tê-la arrastado para fora de casa, enquanto ela lhe implorava que acreditasse nela. Muito menos depois de tê-la entregado aos seus algozes, quando, no fundo, não acreditava realmente em sua culpa. Covarde era ele e merecia todo o sofrimento e o remorso que carregava.
Caminhava apressado através do nevoeiro, seguido de perto pelo jovem William. Mais uma morte ocorrera na madrugada, sinal de que queimar a bruxa não havia resolvido os problemas. Então, como principal membro do conselho da vila, coube a ele a tarefa de ir até a casa, na margem do bosque, buscar as respostas que pudessem solucionar aquela situação.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Tarde demais pra esquecer




Embora o dia estivesse frio em São Paulo, Lucas pediu ao taxista para deixá-lo a dois quarteirões de seu destino. Queria caminhar um pouco, refletir sobre o telefonema recebido um dia antes. A verdade era que não tinha nenhuma pressa de chegar ao encontro marcado e ainda se perguntava por que havia concordado com aquilo. A princípio, pensou que fosse apenas curiosidade, mas acabou aceitando que havia mais em sua decisão. Ele sabia que aquela história não estava encerrada e talvez já fosse hora de dar a ela um fim.
Lembrou-se da última vez em que tinham se encontrado, há dez anos, naquele mesmo local e das palavras de ódio que trocaram. Desde então, não se falaram mais. Nesse tempo, chegou a acreditar que aquilo já não o afetava, que havia superado, mas bastou ouvir sua voz ao telefone para que toda a mágoa viesse à tona.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Carta a Che Guevara


Texto escrito para o Sétimo Desafio de Escritores, cuja tarefa consistia em escrever uma carta a Che falando das atualidades do mundo em relação à luta e os ideais de Guevara.



Companheiro Ernesto,

Surpreendentemente, aos setenta e nove anos, continuo por aqui, respirando, lúcido e consciente de meus atos. Não espere que haja nesta carta um pedido de desculpas. Não é por arrependimento que lhe escrevo, mas por uma súbita necessidade de compartilhar minha frustração. Saiba que, com minha traição, acabei fazendo-lhe um favor. Você se tornou uma personalidade admirada no mundo todo, por pessoas inclusive que jamais o entenderiam se o conhecessem. Soube até que o consideram santo em certos lugares, o que não deixa de ser muito engraçado; a santidade é algo que nunca estaria ao alcance de homens como nós. 
Livrei-o de se tornar uma figura patética, como aconteceu ao seu amigo Fidel. 
Quanto a mim, continuo incógnito, como prometeram os americanos; o serviço secreto deles foi muito eficiente em desaparecer comigo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Momentos


Conto escrito para o Desafio de Escritores, cujo tema foi a canção "Wooden Boat".

Foi numa terça ou quarta-feira, não me lembro bem, mas é certo que era um dia de pouco movimento. Ele entrou, bem vestido, embora a gravata estivesse frouxa e o colarinho desabotoado. Nunca o havia visto por ali e fiquei pensando que tipo de cliente ele seria. Tinha por volta dos sessenta anos e parecia cansado, contudo, seus olhos azuis eram atentos, vívidos. Sentou-se na ponta do balcão, longe de onde eu arrumava os copos, e ficou ali, observando-me em silêncio. Cheguei a pensar que ele fosse do tipo calado; daqueles que bebiam um copo após o outro, pagavam a conta e iam embora sem dizer nada. Porém, aqueles olhos pareciam ansiosos demais para pertencerem a alguém quieto.
Levei-lhe um copo e perguntei o que queria para beber. Ele olhou as prateleiras atrás de mim indeciso e deu de ombros. Apanhei uma garrafa de bourbon e lhe acenei com ela, ao que ele assentiu. Servi-lhe uma dose, perguntando se desejava algo mais. Ele sorriu, pegou o copo e sorveu a bebida toda num gole.
— Por gentileza, jovem...
— Amy.
— Jovem Amy, pode deixar a garrafa aqui comigo.
Eu continuei a organizar os copos sob o balcão, ocasionalmente lançando-lhe um olhar de relance. Ele ficou ali por certo tempo, bebericando o bourbon, parecendo perdido em seus pensamentos. Fui pega de surpresa, quando sua voz ecoou pelo bar vazio.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Princesa de Londres




Havia algo de mórbido naquele seu costume de observar os barcos chegando ao porto. Angustiava-se ao ver os imigrantes desembarcarem de seus navios, cheios de esperança e medo, e ainda assim, sempre que podia estava ali, a contemplar a turba maltrapilha vinda de diversas partes do mundo.
Lembrava-se do pai, que saíra da terra natal cheio de planos e que não chegara àquela que era a capital do mundo. Da irmã mais velha, que também sucumbira à doença durante a viagem, e que sonhava com uma Londres resplandecente, onde teriam posses e seriam princesas. Mas, na maioria das vezes, lembrava-se de si mesma, chegando sozinha numa cidade que nada tinha da prosperidade dos planos do pai ou da beleza dos sonhos da irmã. A primeira impressão que tivera de Londres foi a de que ela tentava repelir os recém-chegados com o seu mau-cheiro.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Dias Agridoces




Tomara que ela se esqueça. Tomara que ela se esqueça. Mas é claro que ela não se esqueceria. Minha mãe cumpria aquela rotina há tempo demais para se esquecer. Mesmo assim, eu me enrolei ainda mais no cobertor e abracei o travesseiro, esperando que, dessa vez, ela não viesse.
— Mila, hora de levantar.
Levante de uma vez e evite o sermão.
— Ah mãe, só hoje...
— De jeito nenhum. Pode ir levantando. Se não tivesse ficado até tarde assistindo à porcarias na TV, não estaria caindo de sono. 
São seis e meia. Eu estaria caindo de sono de qualquer forma.
— Não era porcaria, mãe. Era um documentário.
Sobre a evolução do rock, é verdade.
— Tá, documentário. Agora levante, senão seu pai vai acabar deixando-a pra trás.
Não vai, não. Vai ficar me infernizando, até eu ficar pronta.
Meu pai, como de costume, já havia terminado de tomar o café quando me sentei à mesa.
— Bom dia, dona Camila. Atrasada de novo?
Aquela pergunta também fazia parte do nosso ritual diário.
— No horário. Pai, você e a minha mãe já conversaram?
— Sobre?
O conflito árabe-israelense. Por que os pais têm essa mania de ficar enrolando a gente?

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Carta a Hitler


Texto escrito para o Desafio de Escritores, cuja tarefa consistia em escrever uma carta a Hitler, do ponto de vista do final do século XX, considerando que ele vivesse, nessa época, em Bariloche.

Adolf, 
   Esta carta vem pôr um ponto final em nossa relação; estou te deixando. Cansei-me de teus resmungos de frustração, de tua arrogância injustificada e de tua frieza. Não suporto mais ouvir-te suspirar “Se eles...”, “Se não fosse...”, “Se tivessem...”... Basta! Já que não admites que arruinaste a ti e ao teu país, assume ao menos que destruíste minha vida. 
   Há dias, venho pensando na história de outra Eva, a daqui. Sua vida será retratada em um filme. Sobre mim, jamais farão um filme. Culpa minha e culpa tua. Sempre que falam de mim, descrevem-me como uma mulher inexpressiva, vazia e até obtusa. Mas a verdade, e talvez nem tu o saibas, é que não sou nada disso. Ao contrário do que possas pensar, Adolf, sou bastante inteligente, porém tive que me rebaixar muito para estar a tua altura. Anulei-me para estar ao teu lado, primeiro, por deslumbramento adolescente, depois, por amor, e, por fim, por conformismo.
   Entendi, há tempos, que não te limitaste a perseguir os que não te compreendiam, mas calaste também os que enxergavam tua mediocridade. Tive medo de que visses, através de mim, tuas fraquezas. Calei-me e igualei minha covardia à tua. Mas o que devo temer agora? Um velho amargo que perdeu a máscara de superioridade e que passa os dias a praguejar?
   E eu que pensei que te casaste comigo, às vésperas de nossa fuga, porque não me querias perder. Grande ilusão! Tu não querias era estar só em teu fracasso. Arrastaste-me para o exílio apenas por medo da solidão. Eis que farsa foi nosso casamento e que arremedo de marido tu me foste. Digo-te que, em todos esses anos que aqui vivemos, nunca fui feliz.
   Espero que possas, ainda que uma única vez antes de morrer, encarar o mal que fizeste. Tua nação tem vergonha de ti e teu povo ficou marcado por conta das atrocidades que cometeste. Enxerga, homem, tua pequenez. Desce desse pedestal de mentiras onde te instalaste. Que grande estadista foste, se sequer podes sair à rua e dizer aos outros quem és? Se te julgas mesmo tão superior a essas pessoas, que com desprezo chamas de “gente de fala enrolada”, por que não alardeias teus feitos diante delas? Covarde é o que sempre foste! Este povo te cuspiria na cara se te conhecesse.
   Enfim, não posso mais te suportar. Azedas e infectas tudo ao teu redor; preciso limpar-me de ti. Não te preocupes, não tenho qualquer intenção de entregar teu paradeiro; lembro-me de teu pânico, quando descobriram Mengele no Brasil.
   Deixo Bariloche, mas não a Argentina; gosto daqui. Não estou fugindo de ti e sequer pedirei que não me procures, pois sei que, em tua inércia, és incapaz de buscar o que quer que seja.
   Fica e reina no império que conquistaste.

             Eva Braun 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A filha do compadre




Mariana estava largada no sofá assistindo à novela, quando o telefone começou a tocar. 
Lá do quarto, José gritou:
—  Mari, atende aí que eu tô acabando de me vestir.
Não houve resposta e a campainha continuou a ecoar no apartamento. 
José soltou um suspiro, calçando os chinelos. Maldita novela, pensou, arrastando-se até a sala. Lançou à esposa um olhar de desprezo que ela ignorou completamente; estava absorta com a cena de discussão na TV.
— Alô.
Sim, é ele.
Oi, Cumpadre. Quanto tempo, hein?
Pois é. Já tem pra mais de três anos, né?
Mariana vai bem. Tá ali assistindo a novela.
A cumadre Elsa também? É... Coisa de mulher.
Eu não! Se ainda fosse um futebolzinho.
É, jogo do Timão eu não perco.
Não, este ano não. O time tá bom. Hahaha...
É mesmo, Cumpadre? O que foi que houve?

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O filho morto



— Mamãe.
Amy sentou-se na cama, assustada. O chamado do filho caçula, embora apenas um sussurro, fora nítido em seu ouvido. Ela levou as mãos ao rosto e esfregou os olhos, sonolenta. Não podia ser Paul, certamente não passara de um sonho. Levantou-se, vestiu o robe e foi até o quarto das crianças, certificar-se de que Arthur, seu mais velho, estava bem. Ficou observando-o da porta e vê-lo dormir tão serenamente encheu seu coração de ternura. Estava para ir até ele, quando seus olhos encontraram a cama de Paul, arrumada e coberta de bichos de pelúcia. Não pôde continuar ali, precisou sufocar os soluços e sair apressadamente para não acordar Arthur.
De volta ao seu quarto e abraçada ao retrato do filho mais novo, Amy chorou copiosamente.
— Que saudade, meu filho — murmurou.
Estava prestes a apagar as luzes, quando um barulho vindo da sala ecoou no apartamento. Amy pôs-se em pé num salto, indecisa sobre ir ou não averiguar o que acontecera. Que bobagem, Amy. Esta é sua casa, trancada e segura. Provavelmente o gato derrubou alguma coisa, pensou.
Na sala, uma das janelas estava aberta e o vento forte fazia as cortinas esvoaçarem. Um abajur, que ficava próximo a elas, jazia no chão em pedaços. Aí está, a cortina derrubou o abajur, pensou, mas então um arrepio subiu-lhe pelas costas. Quem teria aberto a janela? Estava certa de ter trancado tudo antes de ir deitar-se. Amy foi até lá e olhou para fora. Um mês antes, fora dali que Paul saltara para a morte. Trancou-a e afastou-se dela horrorizada.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Bem aventurado


Silas estava sentado no primeiro banco da igreja, bocejando aborrecido. Podia estar largado diante da TV, aproveitando o feriado, não fosse por sua sogra carola, apoiada pela esposa, que o obrigara a acompanhá-las. Tudo bem, viera até ali, esperaria por elas, mas seguir a procissão da “paixão”, isso ele se recusara terminantemente.
Fitava o altar despido de seus ornamentos, enquanto se lembrava da época em que também era católico e acreditava. Não chegara ao ateísmo, mas na juventude sua fé começou a questioná-lo e se tornara inconveniente. Então, ao invés de buscar uma crença mais flexível, ele optara por simplesmente seguir a vida sem religião. Já na faculdade, foi sua vez de questionar a fé e ela lhe pareceu frágil e pouco crível. Silas era professor de matemática há 20 anos e para alguém tão acostumado à exatidão dos números, a fé ficava condicionada a algum tipo de prova.
Levantou-se e caminhou até o nicho que abrigava uma imagem, em tamanho real, de Jesus Cristo. Parou diante dela e começou a conversar:
— Pois é, seus fiéis estão lá fora revivendo a sua crucificação. Eu tinha dúvida se eles eram sádicos ou masoquistas, mas então os vi malhando o Judas num sábado de aleluia e tudo ficou claro.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Carta a Borges

Texto escrito para o Sétimo Desafio de Escritores: uma carta a Jorge Luís Borges.


Borges e o gato Beppo.

Querido Borges.

Sendo eu a escrever-te esta carta, não poderia ser ela ordinária, mas, sim, fantástica, como são teus textos. Só sendo tu o destinatário, é que ela é possível e não absurda.
 Quero, antes de tudo, agradecer-te pelos poemas. Tiveste inclusive a maravilhosa audácia de dar meu nome a um deles. Senti-me lisonjeado; sabes que sou vaidoso. Porém, foi do outro que gostei mais, daquele cujo título genérico não foi capaz de esconder que era em mim que pensavas quando o escreveste.
São belos, ambos, mas em minha ousadia, achei-os vagos. Havia tanto mais a ser dito. Não senti neles a profundidade de nossa relação. Por que não explicitar a estreiteza dos nossos laços? Acaso temeste falar das noites em que eu me esgueirava para tua cama e do toque macio do meu corpo em tua pele? Não me lembro de ser tua mão temerosa nas carícias que a mim dispensaste, nem terias motivos para isso, já que vivi a me oferecer a ti sem nenhum pudor. Ficaste envergonhado de admitir que, em várias ocasiões, abriste o coração para mim e que fui teu confessor em momentos de angústia? Devias ter escrito sobre as vezes que, na falta dos teus, emprestei-te meus olhos para que visses o mundo da forma que nenhum olho humano seria capaz. Será que te esqueceste de nossa cumplicidade muda? Lembras de como te ensinei a desfrutar de uma boa companhia, sempre que possível, mas principalmente de como apreciar a solidão?
Não estou a me queixar, entende, sou-te muito grato. Mas é que, embora não tenha pertencido a ti, fui mais teu do que de qualquer outra pessoa, e por isso, esperava mais calor em tuas palavras.
Por favor, não te magoes com meu tom impertinente, é que, depois de velho, dei para ficar lamurioso. Pode ser também que eu esteja um tanto aborrecido com a proximidade do fim. Não quero tornar esta carta uma despedida, mas sabendo que minha partida não tarda, é inevitável tocar no assunto. Quero que fiques bem e que cuides de nossa amada Fanny.
Encerro dizendo que fui muito feliz estando tão próximo de ti, e fazendo-te um derradeiro pedido: gostaria de ser posto na Praça San Martín; seria  uma última homenagem a este velho amigo.
Segue feliz, amado Borges.
Do sempre teu,
                Beppo.



segunda-feira, 11 de julho de 2011

O Nirvana não é para todos



O dia mal amanhecera, quando ela começou a subir a encosta íngreme do monte. O vento úmido que soprava sobre o caminho fez com que Aung se encolhesse dentro de seu manto, embora o estremecimento que a acometia não fosse totalmente causado pelo frio. Havia nela insegurança, medo e, sim, raiva.
Pensou em quantas vezes fizera aquele percurso, na maioria delas, ao lado do marido. Em algumas ocasiões, carregava a cesta pesada de donativos, noutras, apenas o coração repleto da vontade de ser útil. Nas últimas semanas, no entanto, subia até o mosteiro completamente desprovida de qualquer sentimento de doação; vinha exigir o que lhe fora tomado. 

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Casa dos Pecados


Mauro abriu os olhos e fitou o teto. O quarto era escuro e abafado, apenas uma luz difusa penetrava pelas frestas das janelas. O velho colchão, onde estava deitado, exalava um odor azedo e enjoativo. Não sabia como chegara ali.  O pânico começou a querer dominá-lo, mas o peso à direita de seu quadril o fez sentir-se seguro. Levou a mão até o coldre e palpou a 9mm.
Sentou-se, analisando o lugar e surpreendeu-se ao notar a mulher do outro lado do quarto. Estava nua e os cabelos escuros contrastavam com a brancura de sua pele. Pareceu-lhe vagamente familiar. Quando ela se aproximou, ele soube onde já havia visto aquele rosto e porque não o reconhecera de imediato: nas fotos que vira dela, seu rosto estava transformado pela morte. 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Planos para o Futuro





Quando o despertador começou a tocar, Jack teve que se esticar sobre o lado vazio da cama para poder desligá-lo. Afundou o rosto no travesseiro da esposa e, embora achasse o perfume agradável, naquela manhã, ele o incomodou. Emily, como todos os dias, já se levantara há algum tempo; era difícil para certas pessoas perder antigos hábitos. Sabia que a encontraria na mesa do café, com uma caneca na mão, folheando o jornal.
Jack soltou um profundo suspiro, afastando as cobertas. Estava cansado daquilo. A rotina, a cama, a casa e, principalmente, a esposa faziam-no se sentir velho. Tinha que se libertar ou sucumbiria àquela atmosfera sufocante de monotonia. Consolava-se por saber que a situação logo estaria resolvida; um mês, pedira-lhe Tom, seu advogado.  

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Arte de Fumaça


Conto escrito para o 6° Desafio de Escritores, cujo tema era "O Jardim da Delícias", quadro de Hieronymus Bosch.




— Mestre Jeroen, está acordado?
A voz de Margô o despertara no primeiro chamado, porém ele relutava em abrir os olhos; a luz podia ser dolorosa. Tentava, ao mesmo tempo, evitar e manter na mente as imagens que o assombravam desde a noite anterior.
— Mestre Jeroen...
— Sim, Margô, estou acordado.
— Perdão, Mestre, por incomodá-lo, mas é que está aqui um servo da Casa de Nassau e ele diz que seu senhor o mandou perguntar sobre a obra encomendada.
— Diga-lhe que espere. Descerei em alguns minutos.
Margô assentiu e retirou-se.
Jeroen sabia que Henrique de Nassau não tardaria a cobrá-lo pela obra, há muito encomendada e paga. No entanto, estava com sérias dificuldades para produzi-la. “Uma visão nova sobre a humanidade e o sagrado”, pedira Nassau e o que á princípio lhe parecera simples tornou-se um desafio. Como produzir algo novo sobre a velha relação Homem/Deus? A resposta veio por meio de um exótico e incrível objeto, que ele conhecera na taverna um dia antes.