"As pessoas me perguntam por que eu escrevo coisas tão brutas. Gosto de dizer que tenho um coração de menino; está guardado num vidro em cima da minha escrivaninha."

(Stephen King)



terça-feira, 8 de abril de 2014

Tempo



Não vou a lugar algum.
Fico e espero
O seu tempo e o meu.

Penso sorrisos e lágrimas
Gritos e sussurros.
E não posso separar o que é de fato
Do que imagino.

Dias de confusão
Melhor é não decidir.
Então fico e espero
No meu tempo
A compreensão ou a cura.



terça-feira, 18 de março de 2014

Dia de guerra

Fonte: Google imagens.

Não quero ouvir coisas legais.
Preciso do meu mau-humor. Deixe-o aqui!
Se o que tem são palavras de exortação, melhor sair
Porque já não posso garantir minha boa educação.
Hoje, quero mesmo desfiar meu rosário de grosserias
Expurgar meu ranço
Exorcizar demônios próprios e alheios
Diagnosticar males em vez de chorar dores.


Não me ofereça a mão, levantarei quando me sentir pronta.
Caso magoe ver-me assim, vá. Pode ir.
Pois não é minha intenção perdê-lo. 
Quando acabar, quero poder combinar com você qualquer coisa
Olhá-lo nos olhos e contar como deixei o inferno.
Mas não agora.
Saia.
Hoje é dia de guerra e a sua paz não me interessa.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Manhã de Natal

Esgueirou-se pela porta, cuidando de olhar para os dois lados antes de sair da casa. A rua deserta começava a iluminar-se com a luz ainda hesitante do amanhecer. Conferiu o relógio e viu que faltavam quinze minutos para as seis. Estava atrasado. Ajeitou o pesado saco no ombro e seguiu com passos apressados para o carro.
Sentia-se exausto e apreensivo, mas, ainda assim, satisfeito. Quatro casas parecia um bom número para alguém de sua idade. Tudo bem, era uma a menos que no ano anterior, mas e daí? O trabalho saíra ainda mais bem feito dessa vez. Nenhum acidente. Nenhuma surpresa. E a certeza de que ninguém conseguiria dizer que ele estivera em qualquer uma das casas. Sorriu.
No entanto, demorara-se além do esperado. De nada adiantaria todo o esmero e cuidado se fosse surpreendido com sua roupa tingida de vermelho vivo e o enorme saco nas costas.
“Talvez eu esteja ficando velho demais pra isso”, pensou, sentindo o ombro formigar sob o peso.
— Bobagem! — murmurou com um sorriso malicioso — Estou melhor que nunca.
Lembrou-se da primeira vez; de como estava nervoso, do medo de ser surpreendido e do sentimento de realização que experimentara ao ver tudo feito como planejado. Ainda provava da mesma sensação após tantos anos. Era revigorante imaginar os rostinhos surpresos das crianças, que iam até a cama dos pais, acordá-los na manhã de Natal. Aquele momento estaria para sempre em suas memórias. Isso fazia valer a pena toda a preparação, que podia levar o ano inteiro. A escolha da cidade, das casas, tudo tinha que ser pensado e planejado com carinho.
Faltavam poucos metros para o carro, e ele se perguntava por que tinha estacionado tão longe. Excesso de cuidado, talvez, mas era melhor assim.
Colocou o saco no chão e aliviou os músculos doloridos. Abriu o porta-malas e teve que fazer um esforço extra para conseguir levantar o fardo. No ano seguinte, poderia cogitar souvenirs mais fáceis de carregar. Mãos, por exemplo, eram menores, mais leves e fáceis de cortar.
“Bobagem!”, pensou, “ Nada fica melhor na estante do que crânios”.
Uma das cabeças rolou para fora do saco. Ele calmamente a apanhou e lançou-a de volta, provocando um ruído nauseante quando ela se chocou com as outras.
Apressou-se. O sol já aparecia, logo as pessoas começariam a acordar. Daí viriam os gritos, os vizinhos, a polícia... Precisava estar longe.

Entrou no carro e partiu, provando da sensação de alegria e dever cumprido. Estava feliz.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Até o fim



Leva-me leve, nas pontas dos dedos
Para que eu não perceba e me assuste.
Porque de medo também morre o amor
E por insegurança, mata-se a felicidade.

Toca-me sempre e devagar
Para que eu me acostume e goste.
Olha-me muito, escuta e fala
Pois importantes são os gestos,
Mas igualmente são as palavras.

Quando eu fugir, busca-me
E me acolhe quando eu voltar.
Que sejam teus braços refúgio seguro
Para onde eu retorne sem receio, sem tredice, sem pesar.

Aconchega-me bem junto do peito
Para que eu te ouça o coração e me convença de que aquele lugar é meu.
E é ali que vou querer estar para sempre
Sendo eu mesma
Até o fim.



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Morte Branca


A morte presa entre meus dedos é pálida e valsa comigo desde meus quinze anos. Fria, ela me seduz, envolvendo-me em seus braços traiçoeiros, apenas para abandonar-me as margens de um vazio profundo e inconsolável.
Cara, cobra seu preço impiedosamente, tirando de mim o juízo, a dignidade e o que me resta de humano. Faz-me seu escravo e, ainda assim, é por ela que chamo quando as coisas querem fazer sentido.
Levou bons amigos, trouxe-me a loucura. Tenho dela nojo e por mim, desprezo. Sendo assim, vou abraçá-la uma última vez. Iremos juntos nesta derradeira viagem ao inferno. Sem pensar nos limites, mergulharemos fundo na imundice de minha existência e quando tivermos ultrapassado o ponto de retorno, só me restará o abandono. Então eu a terei vencido.
Vejo que ela duvida, zombando de mim. Não acredita que eu seja capaz, mesmo quando já tenho o metal cravado na carne. “Amanhã talvez, não hoje”, ouço-a sussurrar. “Posso levá-lo a lugares muito mais interessantes”.
Sinto-me tentado. Quem sabe amanhã? Afinal que diferença fará mais uma dose? Quase a ponho de lado, mas então escuto seu riso. Se não agora, nunca mais. Seguro firmemente o cilindro e desperto nela o pânico; já não tenho mais graça. Um suspiro de alívio, uma lágrima e empurro o êmbolo até o final. Em um instante, sinto-a gritar em minhas veias. Fecho os olhos e gozo dela pela última vez.


E já que o assunto é Morte, enjoy it...