"As pessoas me perguntam por que eu escrevo coisas tão brutas. Gosto de dizer que tenho um coração de menino; está guardado num vidro em cima da minha escrivaninha."

(Stephen King)



quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Até o fim



Leva-me leve, nas pontas dos dedos
Para que eu não perceba e me assuste.
Porque de medo também morre o amor
E por insegurança, mata-se a felicidade.

Toca-me sempre e devagar
Para que eu me acostume e goste.
Olha-me muito, escuta e fala
Pois importantes são os gestos,
Mas igualmente são as palavras.

Quando eu fugir, busca-me
E me acolhe quando eu voltar.
Que sejam teus braços refúgio seguro
Para onde eu retorne sem receio, sem tredice, sem pesar.

Aconchega-me bem junto do peito
Para que eu te ouça o coração e me convença de que aquele lugar é meu.
E é ali que vou querer estar para sempre
Sendo eu mesma
Até o fim.



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Morte Branca


A morte presa entre meus dedos é pálida e valsa comigo desde meus quinze anos. Fria, ela me seduz, envolvendo-me em seus braços traiçoeiros, apenas para abandonar-me as margens de um vazio profundo e inconsolável.
Cara, cobra seu preço impiedosamente, tirando de mim o juízo, a dignidade e o que me resta de humano. Faz-me seu escravo e, ainda assim, é por ela que chamo quando as coisas querem fazer sentido.
Levou bons amigos, trouxe-me a loucura. Tenho dela nojo e por mim, desprezo. Sendo assim, vou abraçá-la uma última vez. Iremos juntos nesta derradeira viagem ao inferno. Sem pensar nos limites, mergulharemos fundo na imundice de minha existência e quando tivermos ultrapassado o ponto de retorno, só me restará o abandono. Então eu a terei vencido.
Vejo que ela duvida, zombando de mim. Não acredita que eu seja capaz, mesmo quando já tenho o metal cravado na carne. “Amanhã talvez, não hoje”, ouço-a sussurrar. “Posso levá-lo a lugares muito mais interessantes”.
Sinto-me tentado. Quem sabe amanhã? Afinal que diferença fará mais uma dose? Quase a ponho de lado, mas então escuto seu riso. Se não agora, nunca mais. Seguro firmemente o cilindro e desperto nela o pânico; já não tenho mais graça. Um suspiro de alívio, uma lágrima e empurro o êmbolo até o final. Em um instante, sinto-a gritar em minhas veias. Fecho os olhos e gozo dela pela última vez.


E já que o assunto é Morte, enjoy it...


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Filosofia clichê de um apaixonado












Amantes têm palavras românticas
Amores, muda cumplicidade.

Amantes festejam vitórias
Amores comemoram conquistas.

Amantes têm códigos secretos
Amores, linguagem própria.

Amantes traçam planos
Amores fazem projetos.

Amantes têm olhares insinuantes
Amores, olhos reveladores.

Amantes são alegres
Amores, felizes.

Que os amantes possam desfrutar da plenitude dos amores.

E que os amores jamais deixem de ser amantes.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Traição


Não foi preciso muito tempo para que seus olhos sonolentos acostumassem-se com a penumbra. A luz da enorme lua penetrava pela janela e iluminava o corpo nu ao seu lado.
Remexeu-me devagar e tocou de leve, com as pontas dos dedos, as costas largas voltadas para ela. Quase desejou que ele despertasse. Conteve o ímpeto de abraçá-lo e desvencilhou-se das cobertas com cuidado.
Apanhou as roupas espalhadas pelo chão e, enquanto as vestia, sentiu as lágrimas arderem-lhe nos olhos. Secou-as antes que corressem pelo rosto. Afastou a sensação incomoda de pesar com um gesto de impaciência, como quem se livra de um inseto impertinente. Lembrou-se mais uma vez dos motivos que a levavam a agir sempre daquela forma e a decisão cristalizou-se nela: tinha que fazê-lo.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A mulher e a moça

Fonte: Google Imagens

Deitada na cama, a mulher olhava o quadro. A moça sorria-lhe, congelada num momento de anos atrás. Nunca lhe devolveu o sorriso. Ao invés disso, fitava-a com misto de inveja e amargura.
Era seu novo ritual: deitar-se sobre os lençóis, ainda revoltos da noite anterior, e contemplar a enorme foto emoldurada. Ficava por muitos minutos, tentando roubar os pensamentos da moça que sorria para sempre. Criava histórias para ela. Imaginava situações que teriam antecedido o instante ali eternizado e as que o sucederam. As inúmeras danças daquela noite e das noites seguintes de sua vida agitada e excitante. Mas a realidade arrastava-a de volta, e os lençóis torcidos sob seu corpo começavam a incomodar.
Levantava-se e se vestia para o trabalho. Olhava a moça com desprezo e indignação. Quem era ela para rir daquela maneira? Acaso não envelheceria e se daria conta de que a vida não é uma festa que dura para sempre? Não. A moça, não. Jamais sofreria decepções ou se frustraria, pois era eterna e sorria, protegida em sua moldura de madeira e vidro. Alheia ao seu sofrimento, ela esbanjava uma felicidade que há muito lhe era estranha.
— Tola! — disse a mulher, certa manhã, enquanto fazia a cama.
— Hipócrita!
A voz irritada que ecoou no quarto quase fez seu coração parar. Olhou ao redor, temendo ter sido surpreendida em seu momento de intimidade com o quadro. Sentia-se excêntrica e seria constrangedor dividir seu segredo com alguém além da moça.
Mas era a moça quem lhe falava. Do quadro, ela a olhava zangada e ofendida. O sorriso fora substituído por um cenho franzido, que a fazia parecer muito mais velha.
— Não! Você não pode! — gritou a mulher horrorizada.
— Como ousa?! Como se atreve olhar para mim com mágoa? Hipócrita! É inveja o que sente quando me vê sorrindo? Como é possível?
A mulher chorava, não de medo, mas de uma tristeza inconsolável.
— Qualquer um pode me julgar, menos você — continuou a moça implacável — É patético vê-la fantasiando o que houve antes e depois de mim. Você sabe o que houve e porque cada coisa aconteceu. O que você vê quando me olha que a faz sentir-se tão mal?
— Você é jovem e bela. E tem esse brilho no olhar, que me machuca profundamente. Como não ter inveja disso? — respondeu a mulher, encolhida contra a parede como uma criança repreendida.
— Sabe o quanto é difícil sorrir enquanto olho para você e vejo o que me tornei? Não tem idéia do esforço que faço para manter o brilho nos olhos quando sei que o medo que a devasta já está plantado em mim. E todos os dias, a minha esperança é que, me vendo sorrir, você se lembre de quem é, de que também sorria apesar do medo. Como pode ter esquecido de que minha vida não é perfeita? Você sabe de tudo pelo o que passei. Sabe que há dias de tristeza, mas sempre há um dia seguinte. Agora, olho pra você, vejo o que o dia seguinte me reserva e penso que realmente não há porque sorrir.
A moça também chorava.
— Não! Não! Não! — gritou a mulher em desespero — Você não pode chorar! Precisa sorrir. Você sorri para sempre!
Mas a moça já exibia um olhar vazio e congelado no tempo. Em seu rosto, lágrimas eternas desfaziam a maquiagem.
Desconsolada, a mulher guardou o quadro no fundo do armário; a visão do sofrimento da moça lhe era insuportável.

Sem a moça, a mulher criou um novo ritual. Todas as manhãs, antes de vestir-se para o trabalho, contemplava o rosto sério, e às vezes amargurado, no espelho e esboçava um sorriso, ainda que tímido. Cultivava-o dia-a-dia, até que pudesse, enfim, voltar a invejar-se novamente.