"As pessoas me perguntam por que eu escrevo coisas tão brutas. Gosto de dizer que tenho um coração de menino; está guardado num vidro em cima da minha escrivaninha."

(Stephen King)



quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Meus pensamentos?



No ano de 2147, diante da grave crise ambiental e do iminente colapso da humanidade, um conselho mundial, constituído por grandes líderes e cientistas, aprovou a implantação do chamado Projeto Íris.
O projeto tinha como objetivo a criação de um software avançado que pudesse avaliar riscos e traçar diretrizes para as ações humanas, de modo a garantir a preservação não só do planeta como do próprio homem.
Com o tempo, Íris ou a Máquina, como era conhecida, apresentou tão bons resultados e ganhou tal importância, que deixou de apenas sugerir e passou a tomar decisões por seus criadores.
Em 2191, a Máquina assumiu o controle sobre o próprio funcionamento, mantendo como principal diretriz o bem estar dos seres humanos e a constituição de uma sociedade global que garantisse a felicidade para TODOS.


Cidade de Cluj-Napoca, Romênia, 2233.


Eu poderia matá-lo agora. Poderia? A Máquina já vai acordá-lo. O relógio... Que horas são?

— Bom dia, Ioana.
— Bom dia, Cosmin.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Imperfeito



Não podemos seguir adiante
No caminho que é meu e seu, nunca nosso
A passo trôpego, em jornada errante
Deixamos de rastro o medo constante
Ao abandonarmos o sou, pensando no posso.

Somos fios soltos na malha da vida
Desfiando, desfazendo e voltando a tecer
Refeita nova/velha em trama torcida
Feia, errada, causando ferida
Nos que nada podem e só fazem crer.

Impossível fugir da história em comum
Que em rascunho mal feito foi engendrada
Pelo acaso, destino e por deus nenhum
Matamos, perdemos irmãos um-a-um
Por falsas verdades de homens, forjadas.

Se juntos não vamos, longe não somos
Quando nenhum de nós precisa ceder
Se a fé é em Um por quem criados fomos
Certos, errados, não importa em que opomos
Tolerância basta para se conviver.

No entanto suportar não parece o bastante
O mais certo seria amor e respeito
O olhar para o outro como igual, semelhante
E ainda que a compreensão me pareça distante
Entender que como ele sou falho, imperfeito.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Paisagens



Não hesitou.
Abriu os olhos
Contemplou o vazio antes do abismo.
Com a mão, varreu o frio do lugar vago.
Não chorou.

Curara a ferida.
Sentia a cicatriz e gostava.
Nada de sinal discreto
De pele fina, sensível.
Mas queloide grosso
Tecido fibroso, rígido.
Feia, deformante
Melhor assim.

Desprezou os lençóis
Não olhou para trás.
A cama era deserto.
O coração, terreno sulcado
Estéril.



segunda-feira, 2 de junho de 2014

Só Sinto




Sinto frio
Sinto dor
Sinto raiva
Só não sinto muito.

Sinto falta
Sinto medo
Sinto-me um pouco
Só.
E só, não sinto muito.



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Cúmplice de Morte



Então um dia, senti o cheiro. O odor ranço e azedo de morte velha e abandono.
Não posso dizer que tenha sido surpresa saber que ela estava realmente morta. Não vou dissimular dizendo-me chocado, mas me entristeci.
Não chorei, nem procurei culpados; não tinha esse direito. Não depois de assistir a sua agonia cínica e passivamente. Eu a vi minguar e sucumbir à própria mediocridade.
Estava lá quando seus companheiros a abandonaram e nada fiz para retê-los.
Primeiro, foi-se o Entusiasmo. 
Partiu cheio de mágoas e com estardalhaço. Fez acusações e se disse injustiçado. Culpou-a duramente, causou-lhe um enorme sofrimento, mas não a feriu de morte. Acho até que sua partida possa ter-lhe trazido certo alívio. Percebi crescer nela uma calma reconfortante e me senti bem com aquilo. Talvez  tenha chegado a pensar que ela fosse ficar bem. Não sei. Só posso dizer que nada fiz, nem me incomodei de fato.
Já quando partiu a Perseverança, eu soube que era sério. 
Explicou-se, antes de ir. Falou de seu cansaço e desculpou-se por não poder continuar. 
Ela não pediu para que ficasse, nem disse que compreendia.
Senti que também estava cansada. E só então pude ver a falta que o Entusiasmo lhe fazia .
Ela poderia ter morrido ali, quando a Perseverança a deixou, mas sua angústia perdurou renitente, com poucos bons e muitos maus dias.
Ainda restava-lhe sua mais valiosa companheira e dela não abriria mão, pois era onde tudo começava, era o que a movia. Mesmo em seus piores momentos, em suas fases mais feias e sem brilho, podia sentir a presença da Criatividade a lhe insuflar os ânimos. Amava-a, acreditava nela com praticamente nenhuma ressalva. 
E talvez sejam esses os motivos que fizeram a Criatividade não se despedir. Fugiu furtiva e envergonhada. Não a acusou, não pediu desculpas e nada lhe deixou.
Depois disso, lembro-me de tê-la visto muito pouco. Desfez-se de algumas companhias incomodas, como a Expectativa e a Pretensão. Flertou brevemente com a Frustração e, por fim, entregou-se à Amargura. Creio ter sido a última vez em que a vi ainda inteira.
Desde então, nossos encontros têm sido estranhos e ao acaso. Confesso que, para mim, é desconfortável deparar-me com o fantasma de minha Escrita. 
Ela, no entanto, parece não se aborrecer; não mais. 
Eventualmente, volta para me assombrar e traz de arrasto algum de seus antigos companheiros. Às vezes, fica tempo suficiente para que nos reconheçamos um pouco. Porém, normalmente, tudo o que quer é lembrar-me de algo que poderíamos ter sido e nunca fomos.
 Jamais tive a oportunidade de enterrá-la, nem acho que o faria. Mas, se não posso ser acusado de sua morte, certamente sinto-me seu cúmplice. Afinal, o Descaso é também assassino.