"As pessoas me perguntam por que eu escrevo coisas tão brutas. Gosto de dizer que tenho um coração de menino; está guardado num vidro em cima da minha escrivaninha."

(Stephen King)



segunda-feira, 29 de maio de 2023

O que havia




Havia uma tristeza.

Pairada etérea no ar

E em tudo depositada

Como fina poeira em camada.

Que as cores desbotava

Azedava todo sabor

Tornava amargo cada gole

Qualquer canção silenciava.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Apneia

Google Imagens


Não foi teu fogo,
Ou tuas unhas a rasgar minha pele,
Nem o trovão de tua voz em meus ouvidos.
Eu precisava respirar.
Um fôlego apenas.
Um instante, e não estavas mais lá.
Já esperava a partida, nunca desejei o retorno.

Mas agora que teus passos voltam a ecoar pela casa,
Sinto as mariposas baterem contra o frágil vidro em meu peito.
Não esperaste convite, tens a chave da rua,... da sala,... do quarto,
Dos armário onde tentamos esconder nossos trastes empoeirados.
Onde me encontraste, afinal?

Já que estais, fica.
Só não me tomes pela mão, nem me toques com o olhar.
Não tentemos ser o que jamais fomos.
Ofereço-te a mesma valsa.
Aprendi a dançar sobre os cacos que deixas espalhados no chão.
Corta mais fundo, eu me encarrego de esconder as cicatrizes.
Só sangra em mim e deixa que eu lide com a bagunça.

Pensas que esqueci de que és dor ou morte?
Não.
Mas me ensinaste a decidir depressa.
Já não pondero.
Eis-me, então, agarrada a ti como nunca.
Tal qual náufrago em desespero, arrasto nós dois para o fundo.
Sem pausa para fôlego.
Estaremos mortos antes que eu precise respirar de novo.
Nenhum de nós virá à tona.
Nenhum de nós vai embora.
Desta vez, ninguém há de viver/morrer sozinho.

terça-feira, 17 de abril de 2018

É claro



̶  O prazo é amanhã!  ̶  gritou o chefe, um sujeitinho nervoso que tinha por hábito berrar com os membros de sua equipe.
Lia encarou-o por um segundo, levantou-se lentamente e, sobre o salto, elevou-se cerca de vinte centímetros acima do chefe. Em um só movimento, varreu a mesa com as mãos, lançando ao chão o computador, pilhas de papel, caneteiro, porta retratos e tudo mais que se acumulava ali.
̶  Foda-se  ̶  foi sua única resposta antes de apanhar a bolsa e sair ecoando por entre as mesas, sob olhares perplexos dos colegas.

…

̶  O prazo é amanhã!  ̶  gritou o chefe.
̶  Pois sente a sua bunda gorda na cadeira e faça você mesmo  ̶  respondeu Lia, sem desviar o olhar da tela do computador.
O homenzinho arregalou os olhos e, espiando nervosamente ao redor, gaguejou:
̶  O... o... o que disse?
Ela o encarou e sorriu; não o sorriso cálido e afável costumeiro dela, mas um esgar de dentes, quase um rosnado.
̶  É o que você ouviu, seu merda. Se quer a porra do trabalho feito até amanhã, sente-se e faça  ̶  disse, levantando-se e apontando a cadeira para o chefe.
Apanhou a bolsa e saiu. Seus passos ecoavam entre os sussurros dos colegas.

…

̶  O prazo é amanhã!  ̶  gritou o chefe.
Sem responder, Lia levou a mão ao caneteiro e pôs-se a avaliar cada caneta guardada ali.
̶  Você me ouviu, Lia?  ̶  berrou num tom mais alto o homenzinho, vermelho de irritação.
Ela o encarou, e algo em seus olhos o fez recuar dois passos. Não era o olhar complacente tão próprio dela, mas um olhar furioso, cheio de ira.
Num gesto rápido ela se pôs de pé, agarrou o chefe numa gravata e cravou repetidamente a caneta na carne flácida de sua papada. Sangue jorrava da garganta e escorria da boca gorgolejante do homem, que lutava sem sucesso, tentando se libertar.
Ela ria o tempo todo. Ria quando quebrou uma das unhas cravadas no couro cabeludo do chefe. Ria quando a caneta prendeu-se no pescoço do homem. Ria enquanto apanhava a bolsa. Ria quando afastou-se da cena de caos, em meio aos gritos dos colegas. Ela ria.

…

̶  O prazo é amanhã!  ̶  gritou o chefe.
Lia ajeitou-se na cadeira, encarando-o com seu olhar complacente. A resposta veio acompanhada do velho sorriso afável:
̶  É claro.

O nó na garganta cresceu, o aperto no peito aumentou. Todos os demônios cochilavam naquela manhã, mas não ficariam assim para sempre...

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O Segredo do Sete



Eles dividiam um vinho, como era habitual, quando o assunto surgiu:

– Você viu que foi desafiada hoje? – perguntou o marido em tom de provocação.

– Vi – ela respondeu, fingindo indiferença – Escrever um texto sobre nossos ciclos de sete anos.

– Coincidência interessante essa, né? Nunca havia parado para pensar; a gente se conhecia há sete anos quando começamos a namorar, sete anos depois, nos casamos e por aí vai...

– É interessante, sim. Quanto à coincidência, não tenho certeza – a esposa levou a taça aos lábios e, antes que o marido a questionasse, emendou – Estive pensando a respeito e acho que já tenho o esboço de uma história. Quer ouvir?

– Claro – ele respondeu, recostando-se.

– Começa no colégio. Ela seria uma garota esquisita, que cresceu os olhos para cima do bonitão da escola. Só que, claro, ela é invisível para ele. Mas uma das vantagens de ser estranha é que você conhece coisas estranhas. E entre o monte de esquisitice que ela sabe há uma mandinga, uma amarração que lhe parece promissora. O feitiço do Sete.

O marido remexeu-se no sofá.

– Do Sete – repetiu ele – Por que do Sete?

– Ora, você não sabe o significado do Sete? – a esposa lançou-lhe um olhar de falsa surpresa – O sete é considerado um número perfeito. Ele é muito presente em várias crenças. Está relacionado a ciclos completos, perfeitos – e sorrindo, completou – como os nossos.

– Não sei se entendi bem, mas enfim...

– Olha só, são vários os exemplos: os ciclos lunares divididos em fases de sete dias, as sete cores que compõem a luz branca, sete dias da criação do mundo, o som formado por sete notas musicais... O sete dá ideia de completude, de ciclo e recomeço. Também tem o lado obscuro da coisa: os sete pecados capitais, o dragão de sete cabeças, os sete selos do livro no Apocalipse... – ela percebeu que o marido a olhava estupefato e concluiu – Enfim, o sete é um número bem poderoso.

– E você sabe de tudo isso... por quê? – ele perguntou, depositando a taça ainda pela metade na mesa de centro.

A esposa pareceu subitamente sem graça.

– Ah, sei lá – ela respondeu sem encará-lo – Achei que você soubesse também. Devo ter lido por aí. Você sabe, adoro uma curiosidade inútil. Vai querer ouvir o resto da história? – perguntou, devolvendo-lhe a taça e servindo-os de mais vinho.

Ele assentiu com um gesto, e a esposa prosseguiu:

– Então ela junta sete componentes em um amuleto, que deve ser velado por sete luas e que é mantido junto dela todas as noites. Assim ela consegue um contrato de sete ciclos, nos quais ele será dela e nada poderá romper seu relacionamento. É mais ou menos por aí... O que achou?

– Não. Não. Espere um pouco. Foi muito rápido – o marido sentou-se ereto, atento, genuinamente interessado – O que são os sete componentes? Como assim “sete ciclos”?

– Sete ciclos completos de sete anos, mais ou menos quarenta e nove anos – ela tomou um longo gole e prosseguiu – Quanto aos componentes, posso descrevê-los quando escrever a história. Seriam coisas que significassem algo durante os ciclos: uma pena de pássaro, uma flor desidratada, uma asa de borboleta... teria também coisas menos fofas, afinal a vida não é sempre bonitinha. Um chocalho de serpente, um casulo de mariposa. E, óbvio, algo que pertencesse a cada um deles.

Ele a olhava com um misto de choque e incredulidade.

– E o que acontece quando o período de sete ciclos acabar? – perguntou em tom temeroso.

Ela deu de ombros.

– Não sei, mas acho que ela dará um jeito. Tenho certeza de que já andaria procurando uma solução para isso, embora ainda não estivesse muito preocupada, afinal, faltaria muito para que o prazo se esgotasse.

Ele ficou em silêncio, contemplando o rosto calmo da esposa. Então, explodiu numa risada nervosa.

– Meu bem, você sabe mesmo bolar umas tramas sinistras! Credo, imagine o cara achando que está levando uma vida bacana, quando foi preso por um feitiço a uma pessoa possivelmente louca.

Ela sorria, e algo naquele sorriso fez o coração do marido gelar.

– Você achou sinistro? Ah, para ser sincera, acho que há algo de romântico na história. E se ele acha que a vida deles é bacana, de repente ninguém está perdendo nada. Por que seria errado, então?

Ele a encarou seriamente.

– Porque ele foi enganado... Porque lhe foi tirada qualquer escolha.

– E que escolha ela teria? – ela respondeu ainda sorrindo.



Naquela noite, o sono do marido foi agitado. Em sonhos, ele se via preso entre restos de animais, e tudo ao redor fedia a rosas murchas.

Acordou sentindo-se sufocado. A esposa ao seu lado dormia tranquilamente.

Levantou-se tonto e tropeçou até o banheiro. Seu rosto pálido, no espelho, tinha aparência envelhecida e cansada. Foi perdido entre fragmentos de lembranças e devaneios do sonho que a revelação o atingiu.

“ ...e é mantido junto dela todas as noites.”

Pé-ante-pé, retomou seu lugar na cama, e cautelosamente pôs-se a esmiuçar o travesseiro da esposa. Quando fechou os dedos ao redor do objeto, soube o que era sem precisar vê-lo.

A mulher já não dormia, mas fitava-o com olhos profundos e exibia um sorriso que era, ao mesmo tempo, frio e exagerado.

– Para falar a verdade – ela sussurrou – acho a história toda muito romântica.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Meus pensamentos?



No ano de 2147, diante da grave crise ambiental e do iminente colapso da humanidade, um conselho mundial, constituído por grandes líderes e cientistas, aprovou a implantação do chamado Projeto Íris.
O projeto tinha como objetivo a criação de um software avançado que pudesse avaliar riscos e traçar diretrizes para as ações humanas, de modo a garantir a preservação não só do planeta como do próprio homem.
Com o tempo, Íris ou a Máquina, como era conhecida, apresentou tão bons resultados e ganhou tal importância, que deixou de apenas sugerir e passou a tomar decisões por seus criadores.
Em 2191, a Máquina assumiu o controle sobre o próprio funcionamento, mantendo como principal diretriz o bem estar dos seres humanos e a constituição de uma sociedade global que garantisse a felicidade para TODOS.


Cidade de Cluj-Napoca, Romênia, 2233.


Eu poderia matá-lo agora. Poderia? A Máquina já vai acordá-lo. O relógio... Que horas são?

— Bom dia, Ioana.
— Bom dia, Cosmin.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Imperfeito



Não podemos seguir adiante
No caminho que é meu e seu, nunca nosso
A passo trôpego, em jornada errante
Deixamos de rastro o medo constante
Ao abandonarmos o sou, pensando no posso.

Somos fios soltos na malha da vida
Desfiando, desfazendo e voltando a tecer
Refeita nova/velha em trama torcida
Feia, errada, causando ferida
Nos que nada podem e só fazem crer.

Impossível fugir da história em comum
Que em rascunho mal feito foi engendrada
Pelo acaso, destino e por deus nenhum
Matamos, perdemos irmãos um-a-um
Por falsas verdades de homens, forjadas.

Se juntos não vamos, longe não somos
Quando nenhum de nós precisa ceder
Se a fé é em Um por quem criados fomos
Certos, errados, não importa em que opomos
Tolerância basta para se conviver.

No entanto suportar não parece o bastante
O mais certo seria amor e respeito
O olhar para o outro como igual, semelhante
E ainda que a compreensão me pareça distante
Entender que como ele sou falho, imperfeito.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Paisagens



Não hesitou.
Abriu os olhos
Contemplou o vazio antes do abismo.
Com a mão, varreu o frio do lugar vago.
Não chorou.

Curara a ferida.
Sentia a cicatriz e gostava.
Nada de sinal discreto
De pele fina, sensível.
Mas queloide grosso
Tecido fibroso, rígido.
Feia, deformante
Melhor assim.

Desprezou os lençóis
Não olhou para trás.
A cama era deserto.
O coração, terreno sulcado
Estéril.



segunda-feira, 2 de junho de 2014

Só Sinto




Sinto frio
Sinto dor
Sinto raiva
Só não sinto muito.

Sinto falta
Sinto medo
Sinto-me um pouco
Só.
E só, não sinto muito.



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Cúmplice de Morte



Então um dia, senti o cheiro. O odor ranço e azedo de morte velha e abandono.
Não posso dizer que tenha sido surpresa saber que ela estava realmente morta. Não vou dissimular dizendo-me chocado, mas me entristeci.
Não chorei, nem procurei culpados; não tinha esse direito. Não depois de assistir a sua agonia cínica e passivamente. Eu a vi minguar e sucumbir à própria mediocridade.
Estava lá quando seus companheiros a abandonaram e nada fiz para retê-los.
Primeiro, foi-se o Entusiasmo. 
Partiu cheio de mágoas e com estardalhaço. Fez acusações e se disse injustiçado. Culpou-a duramente, causou-lhe um enorme sofrimento, mas não a feriu de morte. Acho até que sua partida possa ter-lhe trazido certo alívio. Percebi crescer nela uma calma reconfortante e me senti bem com aquilo. Talvez  tenha chegado a pensar que ela fosse ficar bem. Não sei. Só posso dizer que nada fiz, nem me incomodei de fato.
Já quando partiu a Perseverança, eu soube que era sério. 
Explicou-se, antes de ir. Falou de seu cansaço e desculpou-se por não poder continuar. 
Ela não pediu para que ficasse, nem disse que compreendia.
Senti que também estava cansada. E só então pude ver a falta que o Entusiasmo lhe fazia .
Ela poderia ter morrido ali, quando a Perseverança a deixou, mas sua angústia perdurou renitente, com poucos bons e muitos maus dias.
Ainda restava-lhe sua mais valiosa companheira e dela não abriria mão, pois era onde tudo começava, era o que a movia. Mesmo em seus piores momentos, em suas fases mais feias e sem brilho, podia sentir a presença da Criatividade a lhe insuflar os ânimos. Amava-a, acreditava nela com praticamente nenhuma ressalva. 
E talvez sejam esses os motivos que fizeram a Criatividade não se despedir. Fugiu furtiva e envergonhada. Não a acusou, não pediu desculpas e nada lhe deixou.
Depois disso, lembro-me de tê-la visto muito pouco. Desfez-se de algumas companhias incomodas, como a Expectativa e a Pretensão. Flertou brevemente com a Frustração e, por fim, entregou-se à Amargura. Creio ter sido a última vez em que a vi ainda inteira.
Desde então, nossos encontros têm sido estranhos e ao acaso. Confesso que, para mim, é desconfortável deparar-me com o fantasma de minha Escrita. 
Ela, no entanto, parece não se aborrecer; não mais. 
Eventualmente, volta para me assombrar e traz de arrasto algum de seus antigos companheiros. Às vezes, fica tempo suficiente para que nos reconheçamos um pouco. Porém, normalmente, tudo o que quer é lembrar-me de algo que poderíamos ter sido e nunca fomos.
 Jamais tive a oportunidade de enterrá-la, nem acho que o faria. Mas, se não posso ser acusado de sua morte, certamente sinto-me seu cúmplice. Afinal, o Descaso é também assassino.

terça-feira, 13 de maio de 2014

NÓS somos assim.



Somos o fracasso.
Independente do que acreditamos não há como nos vermos de outra maneira. Somos o fracasso da Criação e da Evolução. Não atendemos às expectativas de Deus, nem tampouco somos melhores que nossos ancestrais primitivos. Ainda somos turba, somos bárbaros, somos animais guiados por instintos e sem empatia. Não qualquer animal, somos os piores, pois nos julgamos superiores.
Adoramos ser o que somos. Orgulhosos das bandeiras que levantamos e das fronteiras que nos limitam. Somos homens, mulheres, machistas, feministas, homos, héteros, cristãos, muçulmanos, ateus, liberais, conservadores, capitalistas, comunistas, negros, brancos... só não somos humanos. Certamente não no sentido de enxergarmos o outro como semelhante.
Somos educados, ou fingimos ser, e dizemos que “aceitamos” as diferenças, mas, cá entre nós, de que vale e a quem pode interessar essa aceitação?
Falamos em respeito e bradamos por ele. Contudo nosso respeito acaba quando saímos da condição de quem pleiteia para a de quem decide. E decidimos sempre pensando em nós . Fazemos concessões esperando que o mesmo seja feito em contrapartida. E quando frustrados, não nos furtamos de exigir a reciprocidade. Ora, que nobre somos!
E nos arrastamos nessa dança macabra há milênios, vivendo a ilusão de que melhoramos, evoluímos, nos aperfeiçoamos. Inocentes ou hipócritas, não importa, o que vale é seguir em frente. Até nos depararmos com cenas que nos fazem lembrar de onde viemos. Acontecimentos que chocam e nos fazem virar o rosto. Repudiamos, é claro, e repetimos o mantra de que não somos assim. Não matamos, não torturamos, não sequestramos, não massacramos... não somos assim!
Daí criamos mais um “ELES”. Mas o que são ELES, então, se não são NÓS?
ELES são todos os que fazem aquilo que não fazemos; ao menos não quando alguém nos vê. ELES são NÓS em situações que não vivemos, e que, em nossa perfeição, nos é inimaginável. Assim, dividimos ainda mais o nosso coletivo em bons e maus, íntegros e desonestos, simpáticos e intolerantes... nós e eles.
Amamos fazer parte do NÓS, mas lá no fundo, bem dentro da nossa maior intimidade, sabemos que o que realmente nos importa é o EU.
Isso, no entanto, é coisa dELES.
Não, NÓS não somos assim.


terça-feira, 8 de abril de 2014

Tempo



Não vou a lugar algum.
Fico e espero
O seu tempo e o meu.

Penso sorrisos e lágrimas
Gritos e sussurros.
E não posso separar o que é de fato
Do que imagino.

Dias de confusão
Melhor é não decidir.
Então fico e espero
No meu tempo
A compreensão ou a cura.



terça-feira, 18 de março de 2014

Dia de guerra

Fonte: Google imagens.

Não quero ouvir coisas legais.
Preciso do meu mau-humor. Deixe-o aqui!
Se o que tem são palavras de exortação, melhor sair
Porque já não posso garantir minha boa educação.
Hoje, quero mesmo desfiar meu rosário de grosserias
Expurgar meu ranço
Exorcizar demônios próprios e alheios
Diagnosticar males em vez de chorar dores.


Não me ofereça a mão, levantarei quando me sentir pronta.
Caso magoe ver-me assim, vá. Pode ir.
Pois não é minha intenção perdê-lo. 
Quando acabar, quero poder combinar com você qualquer coisa
Olhá-lo nos olhos e contar como deixei o inferno.
Mas não agora.
Saia.
Hoje é dia de guerra e a sua paz não me interessa.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Manhã de Natal

Esgueirou-se pela porta, cuidando de olhar para os dois lados antes de sair da casa. A rua deserta começava a iluminar-se com a luz ainda hesitante do amanhecer. Conferiu o relógio e viu que faltavam quinze minutos para as seis. Estava atrasado. Ajeitou o pesado saco no ombro e seguiu com passos apressados para o carro.
Sentia-se exausto e apreensivo, mas, ainda assim, satisfeito. Quatro casas parecia um bom número para alguém de sua idade. Tudo bem, era uma a menos que no ano anterior, mas e daí? O trabalho saíra ainda mais bem feito dessa vez. Nenhum acidente. Nenhuma surpresa. E a certeza de que ninguém conseguiria dizer que ele estivera em qualquer uma das casas. Sorriu.
No entanto, demorara-se além do esperado. De nada adiantaria todo o esmero e cuidado se fosse surpreendido com sua roupa tingida de vermelho vivo e o enorme saco nas costas.
“Talvez eu esteja ficando velho demais pra isso”, pensou, sentindo o ombro formigar sob o peso.
— Bobagem! — murmurou com um sorriso malicioso — Estou melhor que nunca.
Lembrou-se da primeira vez; de como estava nervoso, do medo de ser surpreendido e do sentimento de realização que experimentara ao ver tudo feito como planejado. Ainda provava da mesma sensação após tantos anos. Era revigorante imaginar os rostinhos surpresos das crianças, que iam até a cama dos pais, acordá-los na manhã de Natal. Aquele momento estaria para sempre em suas memórias. Isso fazia valer a pena toda a preparação, que podia levar o ano inteiro. A escolha da cidade, das casas, tudo tinha que ser pensado e planejado com carinho.
Faltavam poucos metros para o carro, e ele se perguntava por que tinha estacionado tão longe. Excesso de cuidado, talvez, mas era melhor assim.
Colocou o saco no chão e aliviou os músculos doloridos. Abriu o porta-malas e teve que fazer um esforço extra para conseguir levantar o fardo. No ano seguinte, poderia cogitar souvenirs mais fáceis de carregar. Mãos, por exemplo, eram menores, mais leves e fáceis de cortar.
“Bobagem!”, pensou, “ Nada fica melhor na estante do que crânios”.
Uma das cabeças rolou para fora do saco. Ele calmamente a apanhou e lançou-a de volta, provocando um ruído nauseante quando ela se chocou com as outras.
Apressou-se. O sol já aparecia, logo as pessoas começariam a acordar. Daí viriam os gritos, os vizinhos, a polícia... Precisava estar longe.

Entrou no carro e partiu, provando da sensação de alegria e dever cumprido. Estava feliz.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Até o fim



Leva-me leve, nas pontas dos dedos
Para que eu não perceba e me assuste.
Porque de medo também morre o amor
E por insegurança, mata-se a felicidade.

Toca-me sempre e devagar
Para que eu me acostume e goste.
Olha-me muito, escuta e fala
Pois importantes são os gestos,
Mas igualmente são as palavras.

Quando eu fugir, busca-me
E me acolhe quando eu voltar.
Que sejam teus braços refúgio seguro
Para onde eu retorne sem receio, sem tredice, sem pesar.

Aconchega-me bem junto do peito
Para que eu te ouça o coração e me convença de que aquele lugar é meu.
E é ali que vou querer estar para sempre
Sendo eu mesma
Até o fim.



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Morte Branca


A morte presa entre meus dedos é pálida e valsa comigo desde meus quinze anos. Fria, ela me seduz, envolvendo-me em seus braços traiçoeiros, apenas para abandonar-me as margens de um vazio profundo e inconsolável.
Cara, cobra seu preço impiedosamente, tirando de mim o juízo, a dignidade e o que me resta de humano. Faz-me seu escravo e, ainda assim, é por ela que chamo quando as coisas querem fazer sentido.
Levou bons amigos, trouxe-me a loucura. Tenho dela nojo e por mim, desprezo. Sendo assim, vou abraçá-la uma última vez. Iremos juntos nesta derradeira viagem ao inferno. Sem pensar nos limites, mergulharemos fundo na imundice de minha existência e quando tivermos ultrapassado o ponto de retorno, só me restará o abandono. Então eu a terei vencido.
Vejo que ela duvida, zombando de mim. Não acredita que eu seja capaz, mesmo quando já tenho o metal cravado na carne. “Amanhã talvez, não hoje”, ouço-a sussurrar. “Posso levá-lo a lugares muito mais interessantes”.
Sinto-me tentado. Quem sabe amanhã? Afinal que diferença fará mais uma dose? Quase a ponho de lado, mas então escuto seu riso. Se não agora, nunca mais. Seguro firmemente o cilindro e desperto nela o pânico; já não tenho mais graça. Um suspiro de alívio, uma lágrima e empurro o êmbolo até o final. Em um instante, sinto-a gritar em minhas veias. Fecho os olhos e gozo dela pela última vez.


E já que o assunto é Morte, enjoy it...


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Filosofia clichê de um apaixonado












Amantes têm palavras românticas
Amores, muda cumplicidade.

Amantes festejam vitórias
Amores comemoram conquistas.

Amantes têm códigos secretos
Amores, linguagem própria.

Amantes traçam planos
Amores fazem projetos.

Amantes têm olhares insinuantes
Amores, olhos reveladores.

Amantes são alegres
Amores, felizes.

Que os amantes possam desfrutar da plenitude dos amores.

E que os amores jamais deixem de ser amantes.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Traição


Não foi preciso muito tempo para que seus olhos sonolentos acostumassem-se com a penumbra. A luz da enorme lua penetrava pela janela e iluminava o corpo nu ao seu lado.
Remexeu-me devagar e tocou de leve, com as pontas dos dedos, as costas largas voltadas para ela. Quase desejou que ele despertasse. Conteve o ímpeto de abraçá-lo e desvencilhou-se das cobertas com cuidado.
Apanhou as roupas espalhadas pelo chão e, enquanto as vestia, sentiu as lágrimas arderem-lhe nos olhos. Secou-as antes que corressem pelo rosto. Afastou a sensação incomoda de pesar com um gesto de impaciência, como quem se livra de um inseto impertinente. Lembrou-se mais uma vez dos motivos que a levavam a agir sempre daquela forma e a decisão cristalizou-se nela: tinha que fazê-lo.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A mulher e a moça

Fonte: Google Imagens

Deitada na cama, a mulher olhava o quadro. A moça sorria-lhe, congelada num momento de anos atrás. Nunca lhe devolveu o sorriso. Ao invés disso, fitava-a com misto de inveja e amargura.
Era seu novo ritual: deitar-se sobre os lençóis, ainda revoltos da noite anterior, e contemplar a enorme foto emoldurada. Ficava por muitos minutos, tentando roubar os pensamentos da moça que sorria para sempre. Criava histórias para ela. Imaginava situações que teriam antecedido o instante ali eternizado e as que o sucederam. As inúmeras danças daquela noite e das noites seguintes de sua vida agitada e excitante. Mas a realidade arrastava-a de volta, e os lençóis torcidos sob seu corpo começavam a incomodar.
Levantava-se e se vestia para o trabalho. Olhava a moça com desprezo e indignação. Quem era ela para rir daquela maneira? Acaso não envelheceria e se daria conta de que a vida não é uma festa que dura para sempre? Não. A moça, não. Jamais sofreria decepções ou se frustraria, pois era eterna e sorria, protegida em sua moldura de madeira e vidro. Alheia ao seu sofrimento, ela esbanjava uma felicidade que há muito lhe era estranha.
— Tola! — disse a mulher, certa manhã, enquanto fazia a cama.
— Hipócrita!
A voz irritada que ecoou no quarto quase fez seu coração parar. Olhou ao redor, temendo ter sido surpreendida em seu momento de intimidade com o quadro. Sentia-se excêntrica e seria constrangedor dividir seu segredo com alguém além da moça.
Mas era a moça quem lhe falava. Do quadro, ela a olhava zangada e ofendida. O sorriso fora substituído por um cenho franzido, que a fazia parecer muito mais velha.
— Não! Você não pode! — gritou a mulher horrorizada.
— Como ousa?! Como se atreve olhar para mim com mágoa? Hipócrita! É inveja o que sente quando me vê sorrindo? Como é possível?
A mulher chorava, não de medo, mas de uma tristeza inconsolável.
— Qualquer um pode me julgar, menos você — continuou a moça implacável — É patético vê-la fantasiando o que houve antes e depois de mim. Você sabe o que houve e porque cada coisa aconteceu. O que você vê quando me olha que a faz sentir-se tão mal?
— Você é jovem e bela. E tem esse brilho no olhar, que me machuca profundamente. Como não ter inveja disso? — respondeu a mulher, encolhida contra a parede como uma criança repreendida.
— Sabe o quanto é difícil sorrir enquanto olho para você e vejo o que me tornei? Não tem idéia do esforço que faço para manter o brilho nos olhos quando sei que o medo que a devasta já está plantado em mim. E todos os dias, a minha esperança é que, me vendo sorrir, você se lembre de quem é, de que também sorria apesar do medo. Como pode ter esquecido de que minha vida não é perfeita? Você sabe de tudo pelo o que passei. Sabe que há dias de tristeza, mas sempre há um dia seguinte. Agora, olho pra você, vejo o que o dia seguinte me reserva e penso que realmente não há porque sorrir.
A moça também chorava.
— Não! Não! Não! — gritou a mulher em desespero — Você não pode chorar! Precisa sorrir. Você sorri para sempre!
Mas a moça já exibia um olhar vazio e congelado no tempo. Em seu rosto, lágrimas eternas desfaziam a maquiagem.
Desconsolada, a mulher guardou o quadro no fundo do armário; a visão do sofrimento da moça lhe era insuportável.

Sem a moça, a mulher criou um novo ritual. Todas as manhãs, antes de vestir-se para o trabalho, contemplava o rosto sério, e às vezes amargurado, no espelho e esboçava um sorriso, ainda que tímido. Cultivava-o dia-a-dia, até que pudesse, enfim, voltar a invejar-se novamente.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Promessas


Não tive para ele lágrimas. Chamaram-me fria.
Não me compadeço de perjuros.
Quando levantou a mão contra mim, prometi que não se repetiria. Ele também.
Não foi capaz de manter sua promessa. Eu, sim.